meus textos

Ágil Fotojornalismo – memória de uma época

Por Leila Jinkings

Gostava de fotografar desde criança. Minha câmera Olympus Trip era inseparável e eu fazia boas fotos dos lugares que conhecia. Mais tarde, das minhas filhas pequenas.

A fotografia entrou no meu sangue aos poucos. O golpe fatal foi na faculdade de arquitetura, na Universidade de Brasília, a UnB. A fotografia era uma das ferramentas que usávamos para registrar e entender o entorno das áreas urbanas objeto do estudo.  A Vila do Paranoá, área escolhida pela equipe, nos abraçou, envolvente, diante da luta daquela população contra a desocupação iminente.  Eu, Eliana e demais colegas passamos a apoiar a causa promovendo debates, divulgando a causa, preparando material visual e… haja clic.

Nessa época estabelecera amizade com muitos jornalistas e me inspirava muito o trabalho de Milton Guran, com o qual convivia mais de perto por ser namorado de minha amiga Silvana Louzada.

Resolvi seguir o jornalismo, na área da fotografia. O fotojornalismo me seduzira.  Meus pais me presentearam com uma câmera profissional. Assim, sem mais nem menos. Eles atendiam a uma aspiração da filha. Mandaram (eu morava em Brasília, eles em Belém) uma Pentax Mx, com uma lente grande angular 28 mm e uma 135 mm, além da normal de 50 mm. Fiquei exultante ao receber aquela beleza. Uma maravilha!! Não cansava de abrir e fechar a caixa. Abria a caixa e admirava a câmera, a acariciava e a guardava de volta.

À noite, no Beirute, contava aos amigos do presente maravilhoso que recebera e falava dos meus planos: queria fotografar por aí e pegar alguns trabalhos, mas.. precisaria aprender a usar a câmera, além de revelar os negativos e ampliar as fotos, urgentemente. Na mesa ao lado, um galeguinho simpático fala assim: ”Acaba de ganhar uma bolsa em meu curso de fotografia no Cresça”. Não acreditei naquilo que ouvia. Era sorte demais.

Kim Ir Sem, o galeguinho, era um fotógrafo já renomado. Tinha (tem) um belo trabalho de pesquisa e produção da Fotografia. Ele foi incrível, me deu todo o apoio. Logo na primeira aula ele se entusiasmou com a minha fotografia e me incentivou e incentiva até hoje (hoje, é para eu voltar à fotografia). Kim permitia que eu usasse o laboratório sempre que precisava.

Bom, mas, até esse ponto, meu destino já tinha cruzado com dois futuros fundadores da Ágil Fotojornalismo: Milton Guran e Kim Ir Sen. Eles fundaram a Ágil, mas só chamaram profissionais, evidentemente. Havia muita gente boa. André Dusek, Beth Cruz, Rolnan Pimenta, Salomon Cytrynowicz, Luís Humberto, Waldir Pina, Mailena, o Rui Faquini, Juan Pratiginestos, José Varella e outros.  Eles fizeram um jornal sobre Arrais para lançar a Ágil e programavam um jornal especial sobre a visita do Papa, em 1881. A essa altura minha amiga Silvana também se interessou pela fotografia e – as duas – perseguimos Guran e Kim para nos deixar participar daquela cobertura. O filme negativo P&B, a matéria prima, custava caro e eles não podiam desperdiçar. No final das contas eles nos deram 2 ou 3 filmes pra cada uma. Nossas fotos foram aproveitadas e eu surpreendi com três fotos publicadas, o que me deixou orgulhosa. Era mais do que alguns já consagrados emplacaram.

Depois disso ninguém me segurou mais e passei a colaborar com a Ágil, sempre que tinha um material de interesse. Fui aceita como membro da União dos fotógrafos logo em seguida, com testemunho do fera Luis Humberto, que havia tomado conhecimento de uma cobertura feita por mim e manifestado elogios.

Kim e Guran foram minha referência fotojornalística e ética. Aprendi com eles a bem apurar e ir atrás da foto. Também aprendi a ser ágil na ação jornalística da captação à edição e posterior repasse aos meios de veiculação (o que pode aparentar ter pouca importância, mas a venda e o destaque da foto dependiam da rapidez com a qual você enviava). Não esquecer que naquela época o processo não era instantâneo como é hoje. Tínhamos que fazer a foto, revelar o negativo em câmera escura, ampliar a foto, revelar, secar e enviar por telefoto, que era uma espécie de fax para transmitir a foto por telefone, e que chegava lá como um fax. Quando o tempo permitia, por via aérea, correndo contra os prazos de fechamento das revistas.

A Ágil foi uma escola, uma experiência inesquecível. A convivência solidária e bem humorada entre todos era gratificante. Kim, paciente, perfeccionista, perseguia a qualidade técnica na fotografia e a qualidade no manuseio do nosso patrimônio que ali formávamos: o arquivo fotográfico de um momento decisivo da história – eram os anos da transição democrática, da anistia. Guran era um grande estrategista, sempre atento e muito ágil. Eu admirava muito a rapidez com que ele “pescava” e conduzia pautas e tomava decisões. Juntaram-se ao grupo o Julio Bernardes e o Duda Bentes, que passou a ser o responsável pelo laboratório, além de fotógrafos agenciados em todos os estados.

Me engajei, conduzida pelos ágeis, na luta da categoria por diretos autorais e patrimoniais de nossa produção fotográfica.  Militantes da luta democrática éramos todos. A memória dos movimentos pela Anistia e depois pelas diretas estava toda ali registrada. Em 1986 um incêndio criminoso destruiu grande parte desse patrimônio. Milhares de negativos de todos nós estavam lá e foram queimados. Isto foi determinante para o encerramento da Agência Ágil Fotojornalismo.

Todos que fomos “ágeis” fazemos constar com orgulho em nossos currículos a participação na Agência Ágil. Porque foi mais que uma associação entre fotógrafos. Ela participou da construção da democracia no País.


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