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Brasileiro premiado em Cannes

Alvíssaras do Festival de Cannes 2016:

Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, levou neste sábado 21 o “Olho de Ouro” do Festival de Cannes, prêmio paralelo dedicado ao melhor documentário do festival. O filme “Cinema Novo” aborda o movimento cinematográfico nascido no Brasil e que revolucionou a criação artística nos anos 1960 e 1970.

Domingo poderemos festejar prêmios para os dois brasileiros da Mostra Competitiva: o curta “A Moça que Dançou com o Diabo“, de João Paulo Miranda Maria, e o longa “Aquarius“, de Kleber Mendonça Filho.

Com prêmio ou não a torcida está grande e a crítica se desmancha em elogios. Viva o Cinema Brasileiro!!!!

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Não Perde Este Filme!

O Jornalismo Não Vai Acabar Nunca
Leila Jinkings

Em tempos de antijornalismo descarado, está em cartaz, no Recife, o filme ganhador do Oscar: “SPOTLIGHT – segredos Revelados”. Uma história incrível, real, contemporânea e – pasme! – contém investigação jornalística de verdade.

Saí do filme entusiasmada. É bom demais conhecer como se deu esta investigação histórica, que denunciou o perverso sistema dominado pela igreja, que acoberta pedófilos violentadores de crianças.

Direção e roteiro perfeitos. A narrativa é sutil e precisa. Com muito suspense. Deixa a gente sem fôlego até a última cena. Os atores estão ótimos. Enfim, Não Perde Este Filme!

spotlight1

Assista o trailer:

Resenha oficial: “Estrelando Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Brian D’Arcy James e Stanley Tucci, SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS conta a verdadeira e fascinante história da investigação ganhadora do Prêmio Pulitzer feita pelo jornal Boston Globe, que viria a abalar a cidade e causar uma crise em uma das instituições mais antigas e confiáveis do mundo. Quando o time de repórteres da tenaz equipe “Spotlight” mergulha nas alegações de abuso na Igreja Católica, a investigação de um ano desvenda décadas de encobrimento nos mais altos níveis dos estabelecimentos legais, religiosos e governamentais de Boston, desencadeando uma onda de revelações ao redor do mundo. Dirigido pelo indicado ao Oscar Tom McCarthy, SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS é um thriller investigativo tenso, traçando os passos de uma das maiores histórias criminosas dos tempos modernos.”


Qual é a sua fonte de informação?

Trecho do texto de Jorge Furtado, que realizou recentemente “Mercado da Notícia”, com vasta produção audiovisual, entre elas o Ilha das Flores.

Ele faz uma reflexão importante sobre a falta de informação da maioria das pessoas, incluindo artistas que dão declarações a torto e a direito.

Ainda há Jornalistas no Brasil,

por Jorge Furtado, em 15 de maio de 2014.

 

Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

jorgefurtadoFico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira. Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior. Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa “voltar ao ‘normal ‘”, como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se ”normal” fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?

blog Casa de Cinema


Usando o Controle Remoto

O Documentário Lua Nova do Penar,

realizado por Leila JInkings e Sidnei Pires, está na grade da

TV Cidade Livre DF.  Aproveitem.

O programa tem uma entrevista e o filme na íntegra.

TV Cidade Livre DF – Programação de 10 a 16 de fevereiro

Dia 10 – Segunda-feira

7h – Café na Política Com Jornalista Leite Filho (fixo)

7h30 – Momento Concurso (fixo)

08h – Programa Amigos da História – Contadores de História (fixo)

8h30 – Sons da Cidade Clip Com Marcelo Zamith + Programa Idéias em Debate

9h – TV Rede Mundial (fixo)  

(…)

16h – Sons da Cidade Clip Com Emilia Monteiro + Documentário Lua Nova

Ariano Suassuna fala de Hiram no documentário Lua Nova do Penar

Ariano Suassuna fala de Hiram no documentário Lua Nova do Penar

do penar de Leila Jinkings.

17h – Sons da Cidade Clip Com Baia + 60 anos de trio elétrico

18h15 – Clip Cubano I + Mostra de cinema de Florianópolis

(…)

20h – União Planetária e Sociedade Teosófica (fixo)

21h – Sons da Cidade Clip Com Emilia Monteiro + Contracorrente com o Embaixador do Equador Horacio Sevilla Borja: Sete anos da Revolução Cidadã no Equador

(…)

Dia 11 – Terça-feira

(…)

17h – Programa Letras e Livros Com Batista Programa Letras e Livros Com o Jornalista e escritor Uruguaio Raul Ernesto Larrosa. Entrevistado por Pedro Batista (fixo)

(…)

23h30 –Sons da Cidade Clip Com Baia + Contracorrente com o Embaixador do Equador Horacio Sevilla Borja:Sete anos da Revolução Cidadã no Equador

Dia 12 – Quarta-feira

7h – Clip Cubano I + Desenho Mafalda vol. 1

7h36 – Clip Cubano II + Vértice de Matheus Araújo

(…)

14h15 – Sons da Cidade: Clip Detrito Federal + A Revolução não será transmitida

(…)

17h – Sons da Cidade Clip Com Detrito Federal + 40 anos de Beirute com o grupo som Catado e Moveis Colônias de acaju

18h – Programa Letras e Livros Com o Jornalista e escritor Uruguaio Raul Ernesto Larrosa. Entrevistado por Pedro Batista (fixo)

(…)

23h30 – Mídia Cidadã Com: Roberto Liviano – Presidente do ministério público democrático. O programa Mídia Cidadã é produzido pela Associação dos Canais Comunitários do Estado de São Paulo (ACESP).

 Dia 13 – Quinta-feira

7h – Sons da Cidade Clip Com Martinália + Programa Letras e Livros Com Fernanda Quevedo, Integrante da casa Fora de Eixo de Brasília, En

trevistada por Pedro Batista.

8h – Sons da Cidade Clip Com Emilia Monteiro + Documentário Lua Nova do Penar de Leila Jinkings.

(…)

14h – Clip Cubano II + Documentário Catastroika: A Crise Econômica na Grécia de Katerine Kitidi e Aris Chatzistefanou

(…)

19h30 – Roteiro Espiritualista – Iluminar (fixo) 

20h – TV Supren (União planetária e Sociedade teosófica (fixo)

(…)

Dia 14 – Sexta-feira 

7h – Programa Letras e Livros Com Programa Letras e Livros Com Fernanda Quevedo, Integrante da casa Fora de Eixo de Brasília, Entrevistada por Pedro Batista.

(…)

21h – VT Hora de Cuidar + Sons da Cidade Clip Com Emilia Monteiro + A Bahia de Euclides da Cunha: Um documentário de Carlos Pronzato, este documentário segue os passos de Euclides na Bahia,quando aqui esteve em 1897 durante a Guerra de Canudos,imortalizada no seu livro Os Sertões.

22h – Telejornal (fixo)  

23h – Sons da Cidade Clip Com Martinália + Contracorrente com o Embaixador do Equador Horacio Sevilla Borja: 7 anos da Revolução Cidadã no Equador

0h – Sons da Cidade Clip Com Marcelo Zamith + Documentário ás águas do Urucuia

1h25 – Sons da Cidade: Clip Com Baia + Doc. Brasil visto por dentro

2h27 – Sons da Cidade: Clip Com Detrito Federal + Filme Documentário Macuro

4h – TV Telesur (fixo)

Dia 15 – Sábado 

7h – Direito de Antena – O Professor de Filosofia do Direito, Francisco de Assis Cortez Gomes, expressa suas opiniões sobre “A Igreja Católica e o Papa Francisco

7h15 – Sons da Cidade Clip Com Martinália + Documentário Lua Nova do Penar de Leila Jinkings

8h –Conexão Cidadã Com Antônio Leitão (fixo)  

8h30 – Café na Política Com o Jornalista Leite Filho (fixo)

19h – VT Hora de Cuidar + Sons da Cidade Clip Com Marcelo Zamith + Programa Letras e Livros Com Fernanda Quevedo, Integrante da casa Fora de Eixo de Brasília, Entrevistada por Pedro Batista.

19h30 – Momento Concurso – Vesticon (fixo)

20h – O Libertário (fixo)

20h30 – Momento Espírita – Iluminar (fixo)

21h – Sons da Cidade: Clip Tangoneando + + Documentário Lua Nova do Penar de Leila Jinkings.

21h45 – Sons da Cidade: Clip Martinália + A Revolução de Angicos

22h – Telejornal (fixo)

22h30 – Programa Letras e Livros Com Fernanda Quevedo, Integrante da casa Fora de Eixo de Brasília, Entrevistada por Pedro Batista. (fixo)

23h – ESPAÇO SINDICAL – Em visita à Tv Comunitária de Brasília, o administrador do Cruzeiro, Antônio Sabino, fala sobre os desafios em conduzir uma das cidades satélites mais tradicionais do Distrito Federal, releva o seu “amor” por Taguatinga, satélite onde foi administrador e que mora, e relata os feitos do governo petis

ta na busca por uma cidade ainda melhor para a população

0h – Programa sons da cidade Orquestra Infantil e de cordas da UnB: As orquestras serão regidas por Ricardo Dourado Freire, mestre e doutor em clarineta. Professor associado da UnB nas áreas de clarineta e teoria musical, o regente exerce também a função de presidente da Associação Brasileira de Clarinetistas. Freire é o criador e coordenador geral do MPC. A Câmara Legislativa as orquestras infantil e de cordas do projeto de extensão “Música para Crianças”, da Universidade de Brasília (UnB). A apresentação faz parte do projeto “Música na Câmara”

0h30 – Sons da Cidade: Clip Martinália + Documentário Lua Nova do Penar de Leila Jinkings.

1h30 – Sons da Cidade: Clip Detrito Federal + Documentário Catastroika: Um Documentário de Katerine Kitidi e Aris Chatzistefanou Sobre a Crise Econômica na Grécia

 Dia 16 – Domingo

14h – Sons da Cidade Clip Cubano II + O Panelaço: Em janeiro de 2001 o povo argentino saiu às ruas para protestar pela situação de corrupção e miséria reinante no país e acabou derrubando o presidente Fernando de La Rúa e o seu ministro de Economia, Domingo Cavallo.

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Lua Nova do Penar – trailer

Lua Nova do Penar (Grieving New Moon) – trailer
versão com audiodescrição

Documentário de Leila Jinkings e Sidnei Pires

Hiram Pereira, jornalista, ator e poeta, desaparecido na ditadura no Brasil. As filhas se encontram para falar sobre o pai através da música, elemento unificador no cotidiano da família.
participação em festivais: “Melhor documentário” no IIDFF (Grécia), seleção oficial no MWIFF (Índia) e no DSIFF (Índia) , todos em outubro de 2013.
Recife – 2013 – color 27′
Audiodescrição feita pela Central Dubrasil; voz Hermes Barolli

Grieving New Moon, color, 27′
Hiram Pereira, journalist, actor and poet, who disappeared during the dictatorship in Brazil. The daughters meet to talk about his father through music, unifying element of the family routine.
participation in festivals: “Best Documentary” at IIDFF (Greece), official selection MWIFF (India) and DSIFF (India), all in October 2013.

Luna Nueva del Dolor, color, 27′
Hiram Pereira, periodista, actor y poeta, que desapareció durante la dictadura en Brasil. Las hijas se reúnen para hablar de su padre a través de la música, elemento unificador de la rutina familiar.
participación en festivales: “Mejor Documental” en IIDFF (Grecia), la selección oficial en MWIFF (India) y DSIFF (India), todos ellos en octubre de 2013.


O outono do patriarca

crítica sobre as realizações do cinema pernambucano em 2012. Vale sempre a pena ler uma crítica inteligente:

autor Matheus Pichonelli, Carta capital

O cinema brasileiro termina o ano com o sotaque um pouco mais pernambucano. Não por acaso, três das principais produções nacionais de 2012 vieram de Recife. A primeira delas foi “A Febre do Rato”, visceral elogio à loucura e à poesia marginal de Cláudio Assis. A segunda foi o lírico e intimista “Era uma Vez Eu, Verônica”, de Marcelo Gomes. O último é “O Som ao Redor”, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho que teve pré-estreia na semana passada, em São Paulo, e foi, para mim, a mais grata surpresa. A estreia nacional está prevista para 4 de janeiro.

Se “Febre” é a poesia e “Verônica”, a psicologia, “O Som” é quase um romance sociológico. Embora menos intenso que os coirmãos, o filme é, dos três, o mais completo. A história é simples: a vida dos moradores de um bairro de classe média da capital pernambucana. É, aparentemente, uma vila igual a todas as vilas de qualquer cidade. Tudo ali é verossímil, a começar pelo som das britadeiras, das crianças na quadra do prédio, das buzinas e dos latidos do cão de uns vizinhos que costumam tirar o sono de uma das personagens. Parece a síntese de qualquer drama urbano atual: as cidades que crescem desordenadas, a relação cada vez mais tênue entre centro e periferia, a especulação imobiliária, a tensão entre vizinhos, as pequenas frestas dos pequenos delitos, como o furto, o tráfico e a extorsão. Mas não só.

O Som ao Redor: a velha cidade dá espaço aos grandes empreendimentos. Fotos: Divulgação

O bairro, que parecia se equilibrar entre ordem e desordem, tem a rotina quebrada quando um personagem misterioso, interpretado por Irandhir Santos, bate à porta das casas oferecendo serviço de segurança para toda a rua. Porque já não bastam os sistemas de vigilância permanente, as câmeras de monitoramento e os celulares com filmadoras. É preciso passar a noite em claro e observar cada movimento. É quando a lei, o delito e a segurança paralela começam a se engalfinhar pelo mesmo espaço, um espaço no qual os serviços de primeira ordem são criados à medida que a vida na metrópole ganha complexidade e a segurança habitual se torna obsoleta.

Mas estamos em Recife, lembra o diretor, e a casta de serviços desenvolvida na nova relação de forças – uma elite consolidada e uma periferia que se instala à sua margem – não pode ser facilmente assimilada sem uma mediação histórica: a influência do coronel, assentada sobre a produção da cana de açúcar que, embora decadente, rendeu frutos e se transferiu para o topo da pirâmide urbana. É como se o latifúndio tivesse apenas mudado de endereço. Os velhos fazendeiros de ontem são os proprietários dos quarteirões de hoje. Parecem mortos, mas não estão.

A sobrevida de um velho modelo está encarnada na figura do fazendeiro Francisco, personagem interpretado por W. J. Solha (pai de Verônica no filme de Marcelo Gomes) que vive em uma espécie de minarete do prédio instalado numa rua do qual é dono de quase todos os imóveis. É a ele que os novos guardiões precisam pedir a benção para operar.

Numa das cenas mais simbólicas, Francisco mede de cima a baixo um dos auxiliares da empresa de segurança e repara que o sujeito, negro e de rosto fechado, é cego de um olho. Forjado nos desmando, ele não economiza a galhofa: pergunta como é que um rapaz caolho será capaz de garantir a segurança do bairro. Ouve como resposta: “Se bobear enxergo melhor que o senhor que tem dois olhos”.

“Até aí, Lampião também enxergava e caiu”, responde.

“Mas antes de cair”, contra-argumenta o sujeito, “derrubou muita gente”.

É um dos muitos sinais de que os tempos para o coronel agora são outros. Sinais que se espalham pelo filme quando são captados os resquícios de um estado antigo, de fazendas em ruínas e cidades que se entrelaçam a partir do conflito, com favelas incrustadas bem no centro do bairro nobre. O clima de tranquilidade é uma falácia.

Essa interposição de forças circula o entorno de vidas aparentemente comuns. Sai o conflito pela cerca e entra uma linha tênue entre dominantes e dominados. De um lado, os filhos legítimos do latifúndio – que vão buscar na Europa, caso de um dos personagens, uma sensibilidade social inexistente em seu meio. De outro, os filhos bastardos, que se oferecem a varrer, limpar, cozinhar, servir, vigiar ou trabalhar nas madrugadas dos supermercados abertos para atender uma nova velha classe consumidora.

O personagem de Irandhir Santos se apresenta para oferecer segurança a uma rua que já tem dono

As bases históricas que moldam as relações de poder numa cidade hoje cosmopolita não são apenas o pano de fundo. São parte de um todo que a câmera de Mendonça Filho não deixa escapar. A Recife do diretor é a mesma de Zizo, poeta marginal interpretado pelo mesmo Irandhir Santos em “A Febre do Rato”, e a mesma de Verônica, a médica recém-formada que de repente se vê adulta e se assusta com o futuro em linha reta. São personagens únicos em uma busca universal pela liberdade maltratada pelas formalidades da grande cidade. Os dilemas da Recife de Mendonça Filho também estão espalhados em qualquer cidade de qualquer país. Não são menos universais. A diferença é que, sobre ela, paira um engenho, decadente, persistente e materializado. Como se o diretor dissesse: estamos em Recife, no Nordeste, no Brasil. Aqui, parece dizer, a história se repete, como tragédia ou farsa. Algo expresso quando, por exemplo, um dos personagens, herdeiro de riquezas e autoproclamado dono da rua, grita para os seguranças invasores: “Tomem cuidado, aqui não é a favela”.

A ordem parece clara, embora invertida. É uma gota de superego histórico a abarcar conflitos pessoais – a esta altura, nem superados nem tão comuns

O outono do patriarca.


Amor, Plástico e Barulho, o longa de Renata

De plástico, barulho e seres humanos

por, André Dib

 

Nash Laila e Leo Pyrata em cena romântica de “Amor, Plástico e Barulho” (foto: Toinho Melcop)

Desde a última segunda-feira, o terraço da boate Metrópole, no bairro da Boa Vista, serve de locação para as filmagens do musical “Amor, Plástico e Barulho”. É o primeiro longa de ficção de Renata Pinheiro, que com o marido Sérgio Oliveira na produção ou codireção, assinou os curtas “Superbarroco”, um dos mais premiados de 2009, “Praça Walt Disney”, eleito o melhor de 2011 pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema e o documentário “Estradeiros”, sobre artesãos nômades, pejorativamente chamados de “hippies”.

Agora Renata olha para outra cultura subestimada pelo preconceito: o brega. Não é a primeira vez que ela e Sérgio se dedicam ao tema. Em 2010, ele dirigiu com Petrônio Lorena o curta “Faço de mim o que quero”, projeto idealizado por Renata, que não pode estar à frente por estar envolvida em outros trabalhos. Ainda assim ela assina a coreografia final, em que os créditos estão marcados no corpo dos bailarinos, que Renata define como embrião do novo projeto.

Quando a reportagem chegou ao set, o terraço já estava transformado em casa de shows com pisca-piscas, luminárias recicladas no formato de abacaxis e folhagens de todo o tipo. A equipe converge seu trabalho para o palco, onde se apresentam Jaqueline (Maeve Jinkings) e Alan (Samuel Vieira, baixista da Mombojó). Juntos, eles fazem uma performance erótico-pornográfica, em que dançam e cantam uma música de DJ Dolores, composta especialmente para o filme.

Renata Pinheiro dirige atrizes; em primeiro plano, Maeve Jinkings (foto: Toinho Melcop)

Em conversa com a Folha, Renata diz que seu filme não trata somente do brega, mas das dificuldades e sucessos dos artistas da periferia, o que percebeu ao viajar com uma ban­da no interior paraense. “São pessoas que trabalham em um showbizz precário, periférico, feito de sonhos e decep­ções. A linguagem do musical surge quando o filme entra no mundo subjetivo de Chelly (Nash Laila, de “Deserto Feliz”), dançarina novata que deseja virar cantora”.

Natural do Pará, Maeve tem referências suficientes para encarnar a personagem. Rosto cada vez mais presente em filmes pernambucanos (“O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho, e “Boa Sorte, Meu Amor”, de Daniel Aragão, são apenas os primeiros), em “Amor Plástico e Barulho” ela surge bem diferente do usual, com maquiagem pesada, vestido curto e tamancos de oncinha (o figurino é de Joana Gatis). Eis Jaqueline, líder da banda fictícia Amor com Veneno, inspiração maior de Chelly. Também no elenco está o diretor e ator mineiro Leo Pyrata, no papel de um DJ.

Renata afirma que não procura fazer juízo de valor e que busca com seu longa um meio termo entre o filme de arte e de apelo popular. “Gosto do brega porque ele estimula a sexualidade livre e busca uma sensualidade romântica no caos, contrariando as imposições de mercado”. Por sua vez, Sérgio vê semelhanças entre o brega e o “do it yourself” do punk rock, de acordes restritos e situações precárias. “É um filme político, pois questiona preconceitos da dita classe pensante e por tratar de música e relações descartáveis, que em pouco tempo são jogadas fora como lixo”.

Rodado ao custo de R$ 470 mil, “Amor, Plástico e Barulho” é uma co-produção Brasil (Aro­ma Filmes) / França (Neon Produc­tions) / Argentina (Milk Wo­od), realizada com recursos obtidos via edital do Funcultura / Governo do Estado. O set bilíngue é visto por Sérgio como a possibilidade de dialogar com outras cinematografias, além de abrir espaço para a circulação do filme em outros países.

(Folha de Pernambuco, 04/10/2012)

http://andredib.com/2012/10/04/sobre-plastico-barulho-e-seres-humanos/


Febre do rato, de Cláudio Assis – Estreia

Boa crítica sobre Febre do Rato. Leia e vá ao cinema.

Estreia // Febre do rato, de Cláudio Assis,

 por André Dibb

Movimento, sonho, utopia, paixão. Eis as premissas de Febre do rato, terceiro longa-metragem de Cláudio Assis (Amarelo manga), que estreia amanhã no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Nele, forma e conteúdo convergem para o que talvez seja o filme mais libertário já realizado em Pernambuco. Debaixo da Ponte do Limoeiro, as Torres Gêmeas não parecem tão altas assim. Assista, antes que as próximas palafitas virem shopping.

Sobre o Capibaribe, o Recife muda a cada segundo. Por ele entramos e saímos do filme. Entre o começo e o fim, o mundo-abismo. O que fazer dele? O poeta Zizo (Irandhir Santos), sabe exatamente a resposta. Se rodeia de amigos e celebra a vida. Renuncia rituais de submissão. Fala alto, ri, chora, é transparente, não tem nada a esconder. Não perde tempo com especulações, presta atenção no aqui-agora.

Febre do rato é mais uma viagem autoreferente e excessiva de Cláudio Assis, que faz do filme seu parque de diversões particular, uma Disneylândia do sexo, drogas e poesia. É através dela que Zizo se aproxima de Eneida (Nanda Costa). Ao contrário dos demais personagens, a troca de fluidos entre Zizo e Eneida é de ordem urinária, em cena de amor das mais bonitas que o cinema já produziu.

No mais o casal faz sexo com o olhar, sorrisos, com uma máquina de xerox e se despindo publicamente. Na Rua da Aurora, ele se declara à amada, durante um protesto em cima de um carro. Ao fim da poesia, estão nus.

O que há de mais visceral, no entanto, está no texto, em roteiro escrito por Hilton Lacerda. Não por acaso, Eneida, sua mãe Helena e sua avó Iracema são títulos da literatura nacional. Da boca de Irandhir – em sua melhor atuação até o momento – jorram palavras, de amor, de dor, de denúncia. “As pessoas perderam a capacidade de espernear. A cidade se reinventa em cima de coisas que não vive. É o festival do eu acanhado, a lógica do umbigo miúdo”, diz ao amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele), na mesa do bar.

Nada de lamentações. Zizo e trupe agem e reagem à miséria humana ao redor. Se não há referências na atualidade, buscam atitude no amor livre dos anos 1970, na poesia marginal dos 1980, no manguebeat dos 1990. Problemas que surgem por cegueira da cintura pra cima, se resolvem com sabedoria da cintura pra baixo. É a política dos corpos nus, revolução na epiderme, que refaz um casamento que nunca deveria terminar, o da poesia com a política. Não a poesia comedida, bem comportada, mas a dos loucos, dos que vivem à margem.

Coerente com sua busca, o filme não obedece a lógica temporal ou à forma convencional do cinema, que necessita de muletas dramáticas para existir. Desde o começo, o pacto com o espectador é outro. Tamanho descompromisso gera algum estranhamento mas a força do redemoinho aqui orquestrado é tanta que não há como sair do filme antes do final. A Cláudio, resta apenas o compromisso com sua arte. À sua maneira, ele realiza o desejo de Glauber Rocha em estabelecer linguagem própria (leia-se livre) para o cinema nacional.

Zizo / Cláudio desconhece bons modos. Apaixonado (por Eneida, pelo cinema), pode ser desajeitado para entrar e sair. Não é assim que a banda toca, dizem para gente assim. No entanto, como diz Zizo, “o placar pode ser injusto, mas o jogo é do c…”. Valeu, Cláudio.

Entrevista >> Cláudio Assis: “Precisamos viver o agora. Se deixar pra depois, pode não dar tempo”

Febre do rato estreia com dez cópias, em cinemas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Está satisfeito?
Acho pouco. Este filme precisa estar em outros bairros, no Alto José do Pinho, no Morro do Alemão, no Capão Redondo.

Você trabalha com um elenco completamente engajado. Qual é o pacto estabelecido com os atores para conseguir tamanha entrega?
Quando chamo alguém para meu filme, digo o filme é dele, pois para ser verdadeiro, ele tem que acreditar naquilo.

A performance de Irandhir é particularmente brilhante. Como foi o processo para ele chegar a esse ponto?
No começo, meu amigo e diretor Beto Brant queria que eu fosse Zizo. Eu até tentei, deixei barba, bigode. Quando chamei Irandhir, eu disse a ele: Zizo é tu, sou eu, é o Hilton, somos nós. E ele trouxe algo único para o filme. A forma intensa como Irandhir se entrega é especial, ele é um monstro, passa o dia inteiro ligado no personagem.

Em Febre do rato há várias cenas de sexo, exceto entre os dois casais principais do filme, Zizo / Eneida e Pazinho / Vanessa. Foi proposital?
Eu brinco dizendo coloquei Matheus de castigo, pois no filme todo mundo transa menos ele. Sua relação com a travesti é a mesma de qualquer cara machista. A sociedade é assim, mesmo defendendo o casamento gay, é muito careta. Com Irandhir e Nanda o recado é outro. Ela resiste, não quer assumir o que sente por ele. Quando se entrega, não dá mais tempo. Precisamos viver o agora, fazer o que quiser, amar, desejar. Se deixar pra depois, pode não dar tempo.

Dentro de Febre há um outro filme chamado Maconha, que os personagens assistem durante festa na casa de Zizo.
É um filme inacabado, que começamos a fazer nos anos 1990. Na época, o secretário estadual de justiça, Roberto Franca, disse que a gente poderia filmar que o dinheiro viria, mas nunca saiu. A ideia do filme era fazer uma denúncia de como a hipocrisia em torno da maconha se tornou um problema social. No elenco estava Otto e Aramis Trindade, na fotografia Feijão e na produção, Cecília Araújo. Tenho muito respeito por esse projeto, ele está no Febre como prestação de contas.

Fale mais sobre seu projeto de dirigir um filme infantil.
Todo mundo diz que faço filmes violentos e fiz Febre, que é só poesia. Agora, a pedido do meu filho Francisco, vou fazer um filme infantil. Vai se chamar Chão de estrelas. O livro é resultado de uma pesquisa feita em todo o Brasil, sobre que mundo as crianças querem. Antes vou dirigir outro,Piedade, com texto inédito de Xico Sá, que já tem um pequeno recurso para começar.

(Diario de Pernambuco, 21 e 22/06/2012)

via Estreia // Febre do rato, de Cláudio Assis.


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