O REINO ENCANTADO DE LOBATO

LEGADO – personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo rendem homenagem ao “pai” Lobato

Reinações de Narizinho colocou no mundo os personagens do sítio de Dona Benta

de Leila Jinkings

Vó Laura chegava, diariamente, às 4 da tarde. Tinha encontro marcado comigo e com meus quatro irmãos, para nos levar ao mundo da fantasia. Era uma hora mágica.  Em estado de hipnose,  enquanto ela lia os livros de Monteiro Lobato, com aquela vozinha doce, de onde saiam tantas aventuras. Ficamos íntimos dos moradores do sítio. Narizinho, menina sonhadora e valente, Pedrinho, menino corajoso e aventureiro que não tinha medo de nada  (só de abelha), e Emília, a boneca espevitada e inteligente, cuja rebeldia nos encantava.

Inspirada na vó Laura, reunia minhas filhas, Isadora e Maeve e os filhos da minha irmã Nise, Isabella e Lênin, para contar histórias. Li para eles “Reinações de Narizinho”, Histórias de “Dona Benta”, “Fábulas”, “Aritmética da Emília”, “Caçadas de Pedrinho” e outros. Nem bem aprenderam a ler, foram “iniciados” e cada um escolheu a própria leitura, que começou com os livros de Lobato.

PAI DO SACI

O escritor Monteiro Lobato é mais conhecido, hoje em dia, por causa da série de televisão, O sítio do Pica-Pau Amarelo,  lançada em 1952 pela TV Tupi e posteriormente adquirida pela rede Globo.  As gerações dos anos 1950 a 1970, no entanto, conviveram com os personagens de Lobato com muita intimidade.

Monteiro Lobato, jornalista e escritor, cheio de orgulho pelo país, já havia publicado vários livros antes de voltar-se ao público infantil. Fundou, em 1918, a primeira editora brasileira, a “Monteiro Lobato e Cia”. Antes disso, todos os livros eram impressos em Portugal.

Uma campanha contra o uso de personagens de outras culturas nos espaços voltados à criança, por meio de artigos que escrevia no Estado de São Paulo. O público interagiu de tal maneira, que surgiu dali o perfil do Saci brincalhão e travesso, um personagem genuinamente brasileiro.

Lançado o livro “Saci”, em 1918, Lobato dá a largada: lança, em 1931, Reinações de Narizinho, o primeiro livro infantil brasileiro.  Nascia Dona Benta, Narizinho, Tia Nastácia, Emília, Rabicó, Pedrinho e Visconde de Sabugosa, personagens centrais do Sítio do Pica-pau Amarelo, de onde partem aventuras extraordinárias nas 26 obras legadas por Lobato.

No primeiro livro da série, Reinações de Narizinho,  Monteiro Lobato dá personalidade e voz própria aos personagens, com muita fantasia e imaginação. A menina Lúcia, que responde como Narizinho, vive a primeira aventura viajando pelo fundo do rio que passa pelo sítio da avó, Dona Benta. No Reino da Águas Claras ela conhece “gente” interessante como aranhas, peixes, camarões, caramujos. Casa com o príncipe Escamado, muito galante, e na festa encontra alguns personagens dos contos de fada que fugiam de Dona Carochinha. O Pequeno Polegar, Peter Pan, Pinóquio, Gato Félix e outros que povoam as fantasias infantis.

Emília surge como “uma bonequinha de pano que Narizinho carregava para todo canto”.  Ao tomar a pílula falante do  Dr Caramujo ela começa a falar sem parar e vira a boneca atrevida que aos poucos se torna o personagem mais prestigiado pelo autor. Emília é o alter ego de Lobato. Questiona tudo, desafia poderosos e quer mudar o mundo.

PÉ NO PRESENTE, OLHO NO FUTURO

Monteiro Lobato era um visionário, foi o Visconde de Sabugosa  quem  achou o petróleo brasileiro, quando ninguém acreditava ser viável (“O Poço do Visconde”). Antes da campanha “O Petróleo é Nosso”, abraçada pelos nacionalistas contra os interesses do Império, que já não era de Portugal, já mudara de mãos para os estadunidenses.

Percebe-se que os netos de Dona Benta tem a formação humanista manifestada, por exemplo, no trato com os animais.  Nos capítulos iniciais de “Reinações de Narizinho”, no episódio em que o Dr Caramujo, na falta das pílulas falantes (que estavam sumidas) pretende utilizar uma “falinha de papagaio” tirada do animal. Narizinho recusa e diz que, nesse caso, prefere ver a boneca muda para sempre.

As fábulas falso moralistas de La Fontaine são adaptadas por Lobato, no livro “Fábulas”, no qual a espevitada boneca Emília faz intervenções valiosas. Em uma das fábulas, a da “Cigarra e a Formiga”, em que La Fontaine faz parecer que o lazer e a arte são vagabundagem, ela faz justiça e a cigarra é acolhida pelas formigas, agradecidas por ela ter animado seus dias durante o verão, enquanto trabalhavam. Muito antes de Domenico De Masi (Direito ao Ócio) e contemporâneo aos escritos de  Bertrand Russel (O elogio ao ócio, 1935), Emília já reflete sobre direito à preguiça e  o ócio criativo.

Jeca Tatu, um caboclo que vivia na rede, tomava uns goles de cachaça, não tinha ânimo para o trabalho, foi criado com a intenção de desmistificar a imagem romantizada do homem rural presente na literatura da época. Logo descobriu que eram as mazelas decorrentes do abandono do Estado, que matavam homens, mulheres e crianças do campo, de fome, de verminoses e de doença de chagas. Lobato faz campanha reclamando do descaso do poder público que destina pouca verba para a saúde. O personagem ingênuo e bom cai nas boas graças popular e faz com que Lobato reescreva o personagem, esclarecendo sobre a situação de abandono do homem do campo que as elites teimavam em não perceber. Jeca Tatu é “atendido” e se transforma em um dos personagens mais populares de Lobato, inspirando filmes e até histórias em quadrinhos.

Personagens como a Cuca, o Saci, o Curupira, Iemanjá e outros, que povoavam as assombrações da cultura do imaginário popular, passam a ter voz e cara, por meio do sítio de Dona Benta e até ficam fãs dos irresistíveis  bolinhos da Tia Nastácia.

O valor de Lobato para a literatura infantil é incomensurável. Foi a sua fértil imaginação que proporcionou à turma do sítio descobrir a chave do tamanho (“Chave do Tamanho”), que fazia as pessoas ficaram pequenas ou grandes conforme o giro da chave. Imaginou também pó de pir-lim-pin-pin (que transportava quem o cheirasse, imediatamente, para qualquer lugar pensado). E que dizer do mundo “do faz de conta” de Emília?.  Muitas dessas ideias foram aproveitadas depois em filmes e livros. O filme  “Shrek”, por exemplo,  traz os personagens dos contos de fadas para a atualidade, como ensinou Lobato. O Gato de Botas, o Capitão Gancho, o Peter Pan, a Cinderela,  a Branca de Neve, a Chapeuzinho Vermelho e mais além foram visitar o sítio de Dona Benta e provar o delicioso bolinho da tia Nastácia.

Os personagens da mitologia foram apresentados, com muita informalidade, pelos meninos do sítio a toda uma geração. Muito me impressionou os dois volumes de “Os doze trabalhos de Hercules”, no quais os curiosos Pedrinho, Narizinho, a boneca Emília e o sábio sabugo Visconde de Sabugosa acompanham in loco as missões do mitológico Hercules. A turma já fizera amizade com o herói grego, no livro anterior, “O Minotauro”, e participa ativamente das demais aventuras de Hercules. A mitologia grega é introduzida por Lobato em linguagem divertida e sedutora, atendo-se à Mitologia e reproduzindo as características dos deuses e heróis sem atenuantes.

Monteiro Lobato é, sem dúvida, o mais importante escritor da literatura infanto-juvenil da América Latina. Inspirou, e ainda inspira, aqueles que pensam e escrevem para as crianças. Teve suas obras publicadas pelo mundo todo (na Argentina, por exemplo, foi publicada a obra completa de Lobato, começando por “Travesuras de Naricita”).

Como seria minha vida se não houvesse Lobato. Meu trazia livros de suas idas ao Rio de Janeiro nos anos 60 para (agora eu sei) as reuniões do Partido e do CGT. Eram os presentes mais esperados. Agradeço aos meus pais, a minha vozinha Laura que tornava as histórias mais fantásticas ao nos presentear com a leitura e a Monteiro Lobato.

Leia também: http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=8&id_noticia=8130


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