Febre do rato, de Cláudio Assis – Estreia

Boa crítica sobre Febre do Rato. Leia e vá ao cinema.

Estreia // Febre do rato, de Cláudio Assis,

 por André Dibb

Movimento, sonho, utopia, paixão. Eis as premissas de Febre do rato, terceiro longa-metragem de Cláudio Assis (Amarelo manga), que estreia amanhã no Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Nele, forma e conteúdo convergem para o que talvez seja o filme mais libertário já realizado em Pernambuco. Debaixo da Ponte do Limoeiro, as Torres Gêmeas não parecem tão altas assim. Assista, antes que as próximas palafitas virem shopping.

Sobre o Capibaribe, o Recife muda a cada segundo. Por ele entramos e saímos do filme. Entre o começo e o fim, o mundo-abismo. O que fazer dele? O poeta Zizo (Irandhir Santos), sabe exatamente a resposta. Se rodeia de amigos e celebra a vida. Renuncia rituais de submissão. Fala alto, ri, chora, é transparente, não tem nada a esconder. Não perde tempo com especulações, presta atenção no aqui-agora.

Febre do rato é mais uma viagem autoreferente e excessiva de Cláudio Assis, que faz do filme seu parque de diversões particular, uma Disneylândia do sexo, drogas e poesia. É através dela que Zizo se aproxima de Eneida (Nanda Costa). Ao contrário dos demais personagens, a troca de fluidos entre Zizo e Eneida é de ordem urinária, em cena de amor das mais bonitas que o cinema já produziu.

No mais o casal faz sexo com o olhar, sorrisos, com uma máquina de xerox e se despindo publicamente. Na Rua da Aurora, ele se declara à amada, durante um protesto em cima de um carro. Ao fim da poesia, estão nus.

O que há de mais visceral, no entanto, está no texto, em roteiro escrito por Hilton Lacerda. Não por acaso, Eneida, sua mãe Helena e sua avó Iracema são títulos da literatura nacional. Da boca de Irandhir – em sua melhor atuação até o momento – jorram palavras, de amor, de dor, de denúncia. “As pessoas perderam a capacidade de espernear. A cidade se reinventa em cima de coisas que não vive. É o festival do eu acanhado, a lógica do umbigo miúdo”, diz ao amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele), na mesa do bar.

Nada de lamentações. Zizo e trupe agem e reagem à miséria humana ao redor. Se não há referências na atualidade, buscam atitude no amor livre dos anos 1970, na poesia marginal dos 1980, no manguebeat dos 1990. Problemas que surgem por cegueira da cintura pra cima, se resolvem com sabedoria da cintura pra baixo. É a política dos corpos nus, revolução na epiderme, que refaz um casamento que nunca deveria terminar, o da poesia com a política. Não a poesia comedida, bem comportada, mas a dos loucos, dos que vivem à margem.

Coerente com sua busca, o filme não obedece a lógica temporal ou à forma convencional do cinema, que necessita de muletas dramáticas para existir. Desde o começo, o pacto com o espectador é outro. Tamanho descompromisso gera algum estranhamento mas a força do redemoinho aqui orquestrado é tanta que não há como sair do filme antes do final. A Cláudio, resta apenas o compromisso com sua arte. À sua maneira, ele realiza o desejo de Glauber Rocha em estabelecer linguagem própria (leia-se livre) para o cinema nacional.

Zizo / Cláudio desconhece bons modos. Apaixonado (por Eneida, pelo cinema), pode ser desajeitado para entrar e sair. Não é assim que a banda toca, dizem para gente assim. No entanto, como diz Zizo, “o placar pode ser injusto, mas o jogo é do c…”. Valeu, Cláudio.

Entrevista >> Cláudio Assis: “Precisamos viver o agora. Se deixar pra depois, pode não dar tempo”

Febre do rato estreia com dez cópias, em cinemas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Está satisfeito?
Acho pouco. Este filme precisa estar em outros bairros, no Alto José do Pinho, no Morro do Alemão, no Capão Redondo.

Você trabalha com um elenco completamente engajado. Qual é o pacto estabelecido com os atores para conseguir tamanha entrega?
Quando chamo alguém para meu filme, digo o filme é dele, pois para ser verdadeiro, ele tem que acreditar naquilo.

A performance de Irandhir é particularmente brilhante. Como foi o processo para ele chegar a esse ponto?
No começo, meu amigo e diretor Beto Brant queria que eu fosse Zizo. Eu até tentei, deixei barba, bigode. Quando chamei Irandhir, eu disse a ele: Zizo é tu, sou eu, é o Hilton, somos nós. E ele trouxe algo único para o filme. A forma intensa como Irandhir se entrega é especial, ele é um monstro, passa o dia inteiro ligado no personagem.

Em Febre do rato há várias cenas de sexo, exceto entre os dois casais principais do filme, Zizo / Eneida e Pazinho / Vanessa. Foi proposital?
Eu brinco dizendo coloquei Matheus de castigo, pois no filme todo mundo transa menos ele. Sua relação com a travesti é a mesma de qualquer cara machista. A sociedade é assim, mesmo defendendo o casamento gay, é muito careta. Com Irandhir e Nanda o recado é outro. Ela resiste, não quer assumir o que sente por ele. Quando se entrega, não dá mais tempo. Precisamos viver o agora, fazer o que quiser, amar, desejar. Se deixar pra depois, pode não dar tempo.

Dentro de Febre há um outro filme chamado Maconha, que os personagens assistem durante festa na casa de Zizo.
É um filme inacabado, que começamos a fazer nos anos 1990. Na época, o secretário estadual de justiça, Roberto Franca, disse que a gente poderia filmar que o dinheiro viria, mas nunca saiu. A ideia do filme era fazer uma denúncia de como a hipocrisia em torno da maconha se tornou um problema social. No elenco estava Otto e Aramis Trindade, na fotografia Feijão e na produção, Cecília Araújo. Tenho muito respeito por esse projeto, ele está no Febre como prestação de contas.

Fale mais sobre seu projeto de dirigir um filme infantil.
Todo mundo diz que faço filmes violentos e fiz Febre, que é só poesia. Agora, a pedido do meu filho Francisco, vou fazer um filme infantil. Vai se chamar Chão de estrelas. O livro é resultado de uma pesquisa feita em todo o Brasil, sobre que mundo as crianças querem. Antes vou dirigir outro,Piedade, com texto inédito de Xico Sá, que já tem um pequeno recurso para começar.

(Diario de Pernambuco, 21 e 22/06/2012)

via Estreia // Febre do rato, de Cláudio Assis.


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