Delírio persecutório

Reproduzo hoje o artigo da advogada Dayse Mayer, colaboradora do JC, que fala dos problemas que tem ocorrido com quem entra ou tenta entrar nos Estados Unidos.
Tem acontecido coisas terríveis, é bom estar atento, caso esteja (ainda) pensando em visitar aquele país. São constrangimentos e até agressões absurdas a menores.

No aeroporto de Miami, a caminho de Orlando, o menino – que é portador de déficit de atenção – desapareceu. A mãe  usou o telefone sem êxito.Repentinamente, escuta a voz do desaparecido gritando em português: “Ajude-me a encontrar minha mãe”,seguido de um pedido de socorro. Localiza o filho na companhia de três policiais. Estava no chão, de costas, algemado e ensanguentado. O aparelho que portava – e que havia custado US$ 400 – estava fragmenta do no piso. O quarto policial era uma mulher que se revelava mais truculenta do que os colegas.

ARTIGOS  – OPINIÃO JC

Delírio persecutório
por Dayse de Vasconcelos Mayer

Joca Souza Leão narrou numa das suas crônicas as vicissitudes de um brasileiro para obter um visto para viagem aos EUA. Também cerrei as minhas possibilidades de visita ao país de George Washington– o primeiro na guerra, o primeiro na paz e o primeiro no coração do seu povo, consoante afirmou Henry Lee. Estudei na Pensilvânia após o término do curso de direito. Guardo recordações curiosas desse tempo. Levei uma camisola de dormir na cor lilás com o respectivo desabillè em fartos babados plissados e muita renda, presente de uma inimiga. Algo que se revelava de mau gosto até para a época. No final dos estudos, fiz um tour por algumas unidades da federação. Sempre aproveitava a oportunidade para “esquecer” o conjunto de noite em cada hotel. Tinha a infelicidade de receber a roupa bem embalada no instante da saída.
Abominava a comida do restaurante da universidade. Recusava os frangos empanados, as cebolas envoltas em massa, as frituras em geral… Levava na bandeja duas sobremesas e um copo de leite. No controle, era advertida de que iria adoecer. Todavia recebia a fatura da sobremesa adicional. O inverno rigoroso exigia o uso de três meias para caminhar até ao prédio onde as aulas eram ministradas. Durante o percurso eu escorregava no gelo e crateras enormes eram abertas no tecido na área do joelho. Certa vez tive coragem de referir à coordenadora que não suportava queda, gelo – e também calor, este último na sala de aula. Sugeri um transporte à saída do alojamento. Não esqueço a resposta: “Vocês, brasileiros, são pouco energéticos”.
Há uma semana uma sobrinha viajou com o filho menor para o país da utopia. No aeroporto de Miami, a caminho de Orlando, o menino – que é portador de déficit de atenção – desapareceu. A mãe usou o telefone sem êxito. Repentinamente, escuta a voz do desaparecido gritando em português: “Ajude-me a encontrar minha mãe”, seguido de um pedido de socorro. Localiza o filho na companhia de três policiais. Estava no chão, de costas, algemado e ensanguentado. O aparelho que portava – e que havia custado US$ 400 – estava fragmentado no piso. O quarto policial era uma mulher que se revelava mais truculenta do que os colegas. Reagiu à frase do menino: “calm download”. Informada de que o aprisionado era meigo, educado e incapaz de um ato violento, os policiais não se convenceram. Instada a apresentar o passaporte, a senhora informou que estava na sacola. E os policiais passaram a gritar em uníssono: uma sacolaaa!!
Comunicado o incidente à Embaixada do Brasil, um brasileiro registrou que o mesmo fato havia sucedido com seu filho, um adolescente fluente em inglês. Foi levado para uma clínica, seviciado e sedado. O crime do rapaz? Havia ingerido remédio para enxaqueca, começou a passar mal e gritou por ajuda. Por tudo isso não desejo retornar ao país da fantasia, da comida pouco atraente, da liberdade insossa e do delírio persecutório. Museus e espetáculos valeriam a pena. Mas posso fazer estes programas em outra praia menos complicada e sem a dolorosa sensação de viver a vida de mais uma colonizada ou terrorista.
Dayse de Vasconcelos Mayer é professora universitária e advogada


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